Porque discordamos desta Compartimentação da Arquitetura

Muitos tem me convidado para falar sobre Arquitetura do Luxo mesmo sabendo o quanto torço o nariz para estas questões de “compartimentar” a arquitetura, até porque nada é mais relativo que a questão do luxo nos dias de hoje.

Nada é mais clichê do que pintar o luxo de dourados e brilhos e sair por aí ostentando coisas e experiências nem da própria pessoa são.

A vontade (ou ganância, ou ambição) de possuir estas coisas com um valor em que às vezes a pessoa só percebe em função ao que ela representa socialmente e não pelo seu valor real e prático, faz do brasileiro (não todos) e de alguns latinos, árabes e asiáticos casos que precisam ser estudados a fundo.

Recentemente li que 75% dos carros de luxo no Brasil são financiados.

Ora, quem efetivamente “pode” ter estes carros não financiaria correto?

Outro dia um empresário americano inconformado com os preços de uma bolsa que via em uma vitrine de um Shopping em São Paulo, virou para mim e disse que se a pessoa pegasse um vôo até Nova York, comprasse a bolsa, passasse 3 dias na cidade e voltasse, iria gastar a mesma coisa e pediu para eu explicar a lógica. Virei para ele e disse:

- Aqui é o único lugar do mundo em que você compra uma bolsa Chanel em 10 vezes no cartão e não precisa passar vergonha por não falar a língua local...

O americano mudou de assunto e resolveu ir embora.

Mas o que isso tem a ver com Arquitetura de Luxo?

Tem a ver porque estes rótulos são extremamente traiçoeiros. Todas as tendências do luxo cruzam várias linhas do Disruptivismo e meu papel em sala de aula e nos projetos que faço é torna-las claras e sustentáveis economicamente para os alunos e clientes.

Luxo como ostentação só faz sentido para as tribos que falei acima onde tudo que reluz é ouro. É uma forma de se mostrar poderoso no ambiente hostil em que a pessoa vive ou viveu. Basta olhar a questão dos jogadores de futebol e músicos nestes países.

Palavras novas como Pós-Demografia passaram a surgir nas análises de tendências de todos os especialistas no assunto. Pós-Demografia é desruptiva no ponto de que eu não preciso mais atrelar uma grande marca com uma produção centrada em sua matriz, usando materiais tradicionais e sem inovação.

As grandes marcas buscam ter produtos locais, feitas com mão de obra local, primorosamente treinada, enfim tudo alinhado com a sustentabilidade e comprometimento social sem o qual hoje as marcas não sobrevivem.

Levando para o lado da hospitalidade, o luxo é poder se hospedar em um hotel em que a experiência, aliada a uma qualidade de produtos e serviços, seja inesquecível.

Ficar posando na varanda do hotel em Ipanema ou na piscina do “rooftop” de um hotel em São Paulo passou a ser uma apologia ao cafona, embora, o “ver e ser visto” continue importante para o marketing pessoal, mas não menos importante do que contribuir com causas sociais bacanas e engajadas.

Luxo na Arquitetura de Interiores é um comprometimento com a qualidade, com aquele móvel sólido em madeira de lei (certificada, claro), com acabamentos premium feitos por empresas responsáveis, com um enxoval de 1000 fios do melhor algodão egípcio ou com aquela almofada única feita por bordadeiras de Sergipe.

Falando em qualidade em produtos e serviços que temos no país, há poucos anos, um executivo chinês, almoçando comigo num restaurante de um hotel de luxo nos Jardins, em São Paulo, correu os olhos pelo ambiente e fulminou:

- Vocês brasileiros chamam isto de “Luxo”?

Quanto ao ensino de “Arquitetura do Luxo” desculpem os ofendidos, mas ninguém “aprende” Luxo. O “Luxo” não é uma questão estética ou você se torna "luxuoso". É cultural.

Ok, você pode até dizer que com dinheiro, passando a frequentar lugares high-end, convivendo com pessoas "top" você pode adquirir este conceito por osmose, mas o único que você irá conseguir é se tornar uma caricatura, um personagem de novela das 9 da TV.

Como educador e profissional do setor, a nossa difícil tarefa é orientar este pessoal, arquitetos e designers querendo entrar para este segmento, como determinar e especificar os melhores produtos e serviços, saber diferenciar o joio do trigo arquitetônico, dar um embasamento cultural para as tomadas de decisões corretas e não que explicar porque a torneira do Ritz é dourada e se quiser fazer algo luxuoso tem que ser assim.

E termino com a brilhante frase de Christian Blanckaert, Ex VP Executivo da Hermés e que, junto comigo, faz parte do corpo docente da URM:

Luxo é Generosidade

Leave your comments

Post comment as a guest

0

Comments (1763)

Load Previous Comments